
Miro está exposto ao sol. Um sol que já não sabe se vai ou se fica. Lembra-se de como quisera ser super-herói. Ter superpoderes e voar e salvar os fracos e oprimidos. Sua mãe fez-lhe uma roupa do zorro para que fosse a uma festa. Mas ele ficou com vergonha. Todos os seus amigos estavam vestidos de robôs. Colocou um balde na cabeça e resolveu o problema.
Miro pensa que podia fazer mais. Que podia ter uma existência mais relevante para o universo inteiro, e não apenas para os que o rodeiam. Ser amado pelos amigos e ajudar uma velhinha a atravessar a vida uma vez na rua outra na morte não parecia fazer tanto sentido. Devia mais. Talvez esse pensamento fosse algo tão ou mais impossível que uma utopia. Mesmo assim, o sol, mesmo já bem fraco, parece dizer-lhe que ele poderia ter feito mais.
Seu dente dói. Esqueceu o horário no dentista. E nem avisou. Nesse momento fazer o dentista perder tempo traz uma culpa tão tamanha como se no fundo no fundo fosse culpado por todos os problemas do mundo. E é. E o dente dói mais ainda por isso. E para se redimir, deixa o dente doer. Pagar com dores nos dentes por todos os seus pecados. Moeda duvidosa. Talvez o chicotinho fosse mais eficiente. Miro não está morrendo. Pode fazer muita coisa ainda. Mas, por preguiça, prefere esperar o fim do mundo. E ele tem certeza de que o mundo vai acabar antes de sua morte. E que Ele não volta não. E não tem separação de almas também não. É tudo balela. Na verdade, vira tudo poeira cósmica de novo. (Que contradição! Pra quê tanta dor de dente então?) Pula na piscina que sua cabeça está queimando exposta ao sol fraco das seis e não há balde nenhum por perto dessa vez.
